• Felipe

O preconceito e a guerra são custos da evolução do altruísmo

Relembrar o nazismo, um dos fenômenos mais pavorosos do século XX, dá certo nó no estômago. Mas é bom lembrar de coisas ruins, em especial para entender o que faz essas coisas acontecerem e -- eu sei que isso é um clichê -- para impedir que se repitam. Diante disso, é preciso enfrentar algumas perguntas inconvenientes: como intelectuais e pessoas aparentemente normais, como eu e você, puderam legitimar um governo manifestamente preconceituoso, racista? Como o extermínio de judeus e de outros grupos virou uma empreitada industrial, a ponto de criar ferrovias e campos de extermínio para tornar o “procedimento” mais “eficiente”? Como pessoas aparentemente normais podem ter cultivado o “hobby” de colecionar roupas e até luminárias feitas com pele e ossos humanos?


Por que grupos desenvolvem preconceitos uns contra os outros ao ponto de se sentirem autorizados a praticar atrocidades? Apesar do nazismo ser o exemplo prototípico disso, versões mais amenas disso permeiam o dia-a-dia. Por exemplo, brigas entre torcidas de futebol e brigas entre panelinhas de alunos na escola. São exemplos de conflito intergrupal, que comumente é motivado por algum tipo de preconceito que um grupo desenvolve em relação ao outro.


Conflitos intergrupais não ocorrem só na espécie humana. Esse resultado da dinâmica social é tão antigo que aparece em todos os vertebrados. Entre chimpanzés, a cooperação intragrupal e a hostilidade intergrupal são comuns, assim como entre humanos. Somos agressivos uns com os outros na mesma medida em que também podemos ser compassivos e altruístas, tudo depende do lugar de onde vem os indivíduos com quem estamos lidando. Em outras palavras, o Homo sapiens é paroquial/tribal, assim como outros primatas.

Possivelmente, a cooperação não evoluiria sem a hostilidade e a agressividade intergrupal. Isso porque a evolução moldou o Homo sapiens para cooperar com pessoas próximas, formando grupos capazes de retaliar e se defender de grupos rivais. Ambientes ancestrais eram escassos em recursos, então era preciso disputar esses recursos com grupos que já os haviam monopolizado, ou brigar para proteger os seus próprios recursos de grupos rivais. Não existia almoço grátis. Se deparar com outro grupo humano poderia ser tão fatal quanto dar de cara com um leão.


O conflito intergrupal frequentemente envolve preconceito contra o grupo rival, isto é, a atitude negativa em relação a esse grupo. O preconceito pode até ser um dos motivadores desses conflitos. Homens costumam ser maiores perpetradores de preconceito e mais protagonistas de conflitos intergrupais (e de altruísmo intragrupal também) do que as mulheres. A natureza universal do paroquialismo e do conflito intergrupal e seu viés de sexo parecem ser universais. Diante disso, o objetivo deste texto será mostrar como teorias evolucionistas podem explicar parcimoniosamente como todos esses fenômenos estão associados entre si e com a história da espécie humana.


Falsos positivos são chatos, mas falsos negativos são fatais


Adaptações evolutivas não são perfeitas. Para serem passadas adiante pelos genes, essas adaptações precisam ser apenas suficientemente boas em solucionar o problema para o qual elas foram sendo moldadas para resolver. É como um detector de fumaça.

Esses detectores esguicham água quando detectam fumaça, o que apaga possíveis incêndios. O problema é que nem sempre fumaça é sinal de incêndio. Mas, do ponto de vista do custo-benefício, compensa mais que o detector se ative mesmo em situações ambíguas. É melhor molhar alguém fumando um cigarro do que correr o risco potencialmente fatal de não evitar um incêndio em suas fases iniciais. Falsos positivos são meros inconvenientes, mas falsos negativos são fatais. A evolução funciona igual, via trade-off, via custo-benefício. E isso tem tudo a ver com as relações de custo e benefício que acabam tendo o preconceito como consequência.


Sistema imunológico comportamental

Por mais inusitado que pareça, o preconceito às vezes pode emergir como resultado de sistemas cognitivos moldados ao longo da evolução como hábeis evitadores de contaminação. Um dos desafios básicos do ambiente de adaptação evolutiva dos ancestrais humanos foi evitar contaminação. Ninguém sabia que doenças eram causadas por microorganismos, mas por observação da realidade as pessoas sabiam que de alguma maneira pessoas com sintomas estranhos morriam mais cedo ou mais tarde, assim como quem ficava muito próximo desses indivíduos. A evolução talhou os organismos com sistemas imunológicos que combatem microorganismos causadores de doenças, mas também preparou respostas em relação a certos estímulos sociais que funcionam como um sistema imunológico comportamental. Esse sistema permite detectar indícios de que outras pessoas podem estar contaminadas e recrutar tendências afetivas e comportamentais aversivas para se livrar do risco de se contaminar. Claro, nada disso envolve volição, ou seja, comportamento voluntário. Esse sistema é como um algoritmo: “se encontrar um indivíduo muito diferente da média das pessoas ao seu redor, se afaste”; “se encontrar um indivíduo desconhecido ou de outro grupo, se defenda ou comece retaliando”.


Mas esse sistema não opera com perfeição. Alguns estímulos que o ativam são ambíguos. Por exemplo, pessoas com alguma deficiência física não necessariamente têm alguma doença contagiosa, mas o nosso sistema imunológico comportamental ‘entende’ que sim. A cognição é sempre conservadora. Em média, somos avessos à perda e ao risco. O sistema imunológico comportamental faz as pessoas tenderem a ter preconceito contra pessoas com características que diferem da média populacional, mas isso nem sempre significa estar contaminado por agentes patogênicos, especialmente hoje em dia, com a medicina moderna. Por exemplo, indivíduos podem apresentar deficiências físicas devido a alguma doença contagiosa, mas também podem ter perdido uma perna num acidente de carro. Apesar dessas possibilidades, em ambas as situações as pessoas tendem a reagir a imagens de pessoas com membros amputados com respostas afetivas de ansiedade e repulsa, e comportamentos evitativos.


Pessoas obesas e idosas são exemplos de grupos afetados por esses sistemas de raciocínio rápido que podem gerar preconceito. Por exemplo, indivíduos cronicamente preocupados com risco de contaminação tendem a ter as mesmas respostas aversivas diante de fotos de pessoas obesas e de pessoas idosas. Parece que há uma associação implícita da obesidade e das idades avançadas com maior risco de contaminação, o que pode explicar essas associações aparentemente improváveis entre pessoas obesas, idosas e respostas típicas a contextos com risco de contaminação.


A ativação desse sistema anticontaminação também parece explicar xenofobia e etnocentrismo. Por exemplo, grávidas no primeiro trimestre de gravidez demonstram maior favoritismo intragrupal e maior xenofobia. Isso faz sentido porque nos primeiros meses de gravidez o organismo tende a interpretar o surgimento do embrião como um corpo estranho, o que ativa o sistema imunológico da grávida como se estivesse protegendo seu organismo de um agente infeccioso.


A percepção do índice de contaminação pode influenciar até mesmo na personalidade. Pessoas de regiões com mais doenças contagiosas tendem a ser menos extrovertidas. Isso faz todo sentido biológico, já que pessoas mais extrovertidas buscam mais contato social e, consequentemente, estão mais sujeitas à contaminação. A personalidade é em grande parte associada à genética, então é bem possível que nesses contextos pessoas menos extrovertidas tendam a ter maior sucesso reprodutivo, deixando mais descendentes introvertidos. Mas também pode ocorrer certa calibração ontogenética da personalidade, fazendo as pessoas se desenvolverem como menos extrovertidas.


A resposta comportamental aos níveis de patógenos tem sido associadas até a diferenças de posicionamento político entre países. Teoricamente, faria sentido que culturas mais conservadoras tendessem a ser mais afetadas por riscos de contaminação, o que explicaria sua maior xenofobia, por exemplo. Uma metanálise de 2013 mostrou que níveis altos de religiosidade, conservadorismo, xenofobia e coletivismo estão associados a respostas mais intensas de medo de contaminação.


A raiz das panelinhas


Tendemos a ter preconceito contra pessoas que fazem parte de outros grupos. Isso é uma verdade universal que todo torcedor de futebol e estudantes reconhecem. É basicamente isso que explica tanto as brigas de torcida, quanto a formação de panelinhas sociais entre alunos. Essas são manifestações culturais da tendência universal de cooperar com pessoas que pensam parecido e ficar na defensiva ou prejudicar pessoas de outros grupos.


Isso pode explicar por que o preconceito contra pessoas de outras etnias é tão frequente. Num estudo, participantes brancos e negros eram separados aleatoriamente em grupos, de forma que participantes de diferentes etnias ficassem num mesmo grupo. Depois, eles atribuíam uma valência mais negativa ou mais positiva aos outros participantes, olhando apenas para seus rostos. Em geral, quem não era do grupo rival era classificado com valência mais negativa do que quem fazia parte do grupo do avaliador. Isso acontecia independentemente da cor da pessoa. A avaliação era ainda mais negativa quando, além de ser de outro grupo, o avaliador tinha uma cor diferente da cor da pessoa avaliada.


A diferença de apoio em relação a ações afirmativas pode ser explicada pelo mesmo fenômeno social. Ações afirmativas são políticas que visam igualdade de resultados entre grupos dominantes e minorias sociais. Por exemplo, uma empresa pode ter vários programas que diminuem a desigualdade na quantidade de brancos e negros contratados. Em geral, pessoas negras apoiam mais essas ações do que pessoas brancas. Isso pode ser explicado como um viés claro de favorecimento intragrupal, no caso do apoio dos negros, e como conflito intergrupal, no caso da falta de apoio dos brancos.


Mas quando os autores desse estudo manipularam experimentalmente o quanto diferentes tipos de ações afirmativas beneficiariam/prejudicariam brancos e negros, o resultado mudou. Quanto mais os brancos se beneficiaram, mais apoiam a ação afirmativa, independente de os negros terem se beneficiado ou não. Quando os negros foram beneficiados, mas sem interferir no que acontecia com os brancos, os brancos endossaram as ações afirmativas.


Em contextos de autoproteção (ativada em situações experimentais ou por situações reais), ocorrem as mesmas tendências de favorecimento intragrupal. Em um estudo, sistemas cognitivos de autoproteção foram ativadas experimentalmente via vídeo. Os participantes brancos classificaram a emoção que percebiam em fotos de faces de diversas pessoas. Os brancos tendiam a interpretar expressões faciais neutras de negros como expressões de raiva. Mas isso só acontecia quando o sexo da pessoa nessas fotos era o masculino.


Apesar de tanto homens quanto mulheres apresentarem esses mecanismos que parecem ativar atitudes preconceituosas diante de determinados estímulos, parece que os homens estão presentes em situações de conflito intergrupal que envolve mais violência.


The male warrior hypothesis

A maioria dos conflitos intergrupais são travados por grupos masculinos. Por exemplo, meninos pré-escolares, mas não meninas, já manifestam tendência de favorecimento intragrupal. Parece que homens possuem tanto a maior tendência de favorecimento intragrupal, quanto de desfavorecimento intergrupal, o que é chamado de tribalismo ou paroquialismo. Isso pode descambar para violência. É o caso da violência entre torcidas de futebol, algo muito mais comum entre homens, o que parece ser motivado por um forte senso de cooperação intragrupal e percepção de ameaça externa. Aparentemente, os homens se engajam mais em conflitos intergrupais, comparando com as mulheres, porque possuem maior senso de orientação hierárquica -- que, em suma, é a disposição de dividir pessoas em hierarquias. Homens também são mais agressivos que as mulheres tanto em termos de violência física, quanto em violência verbal.


Poderíamos alegar que homens são mais violentos porque a cultura faz eles ficarem assim. Apesar de certamente a cultura ter papel modulador, haveria uma regressão infinita do que, por sua vez, fez a cultura ficar assim em primeiro lugar. A cultura pode estar, simplesmente, refletindo tendências típicas de cada sexo.


A questão é por que homens tendem mais à agressividade do que as mulheres. Já que essa parece ser uma característica masculina universal, é útil haver uma resposta evolutiva para isso. De acordo com a teoria da seleção sexual, o sexo com menor investimento parental (i.e. homens) tende a competir mais entre si pelo acesso ao sexo oposto (i.e. o que mais investe). Em termos de cálculo biológico, homens mais agressivos arriscam se ferir mortalmente, mas se sobreviverem podem ganhar o monopólio sobre a fertilidade do sexo oposto. Aumentar as chances de sucesso reprodutivo é o que importa para a evolução. Além disso, sempre há muitas baixas em guerras. Isso significa que a coalizão de homens vencedores têm menos homens para competir por recursos e por sucesso reprodutivo. Não à toa, homens tendem a correr mais riscos do que as mulheres, o que está ligado a homens contraírem mais doenças, se internarem mais ao longo da vida e apresentarem maior risco de morte causada por imprudência no trânsito.


Esses dados sobre os homens parecem ser explicados pela male warrior hypothesis. Segundo essa teoria, como eram basicamente homens que se engajavam em conflitos intergrupais, esse cenário gerou pressão seletiva sobre mecanismos úteis para lidar com esses conflitos. Estar preparado para formar coalizões e ficar alerta para o potencial risco da aproximação de forasteiros seria útil nesse tipo de ambiente ancestral com muita disputa por recursos.


Conclusão

Esportes podem ser uma excelente maneira de manipular tendências de conflito intergrupal de maneira não violenta

Espero ter mostrado ao longo desse texto que o preconceito é consequência do modo como nossa mente funciona. E, por sua vez, o modo como nossa mente funciona é consequência tanto da forma como o cérebro foi moldado ao longo da história evolutiva, tanto quanto pelo ambiente -- embora o foco deste texto tenha sido a evolução humana. A história evolutiva parece ter moldado os primatas de modo que os homens tendem mais a ser mais preconceituosos e tribais, quanto a serem mais agressivos e se engajarem mais em conflitos intergrupais, comparando com as mulheres.


Por último, quero advertir que isso de forma alguma pode ser usado para justificar o preconceito, a guerra, ou qualquer coisa do tipo. Esse não é um texto prescritivo, isto é, um daqueles textos em que se aconselha como as pessoas devem agir, ou que dizem que “é assim mesmo”. Ao contrário, entender todas as variáveis que influenciam no comportamento, entender por que temos comportamentos parecidos com as espécies filogeneticamente mais próximas é uma receita para desenvolvermos maneiras mais inteligentes de modificar o comportamento.


Como citar este texto:

Novaes, F. C. (2018). O preconceito e a guerra são custos da evolução do altruísmo [Blog post]. Retrieved from https://www.l2ps.org/blog/o-preconceito-guerra-custos-da-evolucao-altruismo

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