A influĂȘncia do luxo sobre a beleza: ostentar luxo faz as pessoas serem consideradas mais atraentes?
- Jean Natividade
- 24 de set. de 2018
- 4 min de leitura
Atualizado: 9 de mai. de 2020
Felipe Carvalho Novaes, doutorando em Psicologia pela PontifĂcia Universidade CatĂłlica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), fala da sua pesquisa de mestrado sobre como a evolução explica o que homens e mulheres consideram mais atraente.
O que vocĂȘ estudou?
Passei o mestrado estudando o consumo conspĂcuo como critĂ©rio de atratividade. A minha ideia era descobrir se a ostentação de produtos luxuosos interfere no quanto as pessoas sĂŁo consideradas atraentes, bonitas.
O que Ă©, exatamente, consumo conspĂcuo?
Consumo conspĂcuo Ă© sinĂŽnimo de compra de produtos luxuosos. SĂŁo aqueles produtos que as pessoas podem usar para ostentar seu status social. Alguns poderiam chamar de consumo ostentação. Mas o termo foi consagrado hĂĄ mais de um sĂ©culo por um estudioso chamado Thorstein Veblen. Ele usou o termo para se referir aos adereços altamente chamativos das classes aristocrĂĄticas do sĂ©culo XIX.
"A ideia que norteia a minha pesquisa Ă© que o mecanismo evolutivo por trĂĄs dessa escolha das fĂȘmeas dos pavĂ”es estaria por trĂĄs tambĂ©m da escolha das mulheres."
De onde surgiu a sua ideia de pesquisa, de qual teoria?
Minha ideia partiu do ponto de vista teórico da psicologia evolucionista, que é a årea da psicologia que tenta investigar a função evolutiva dos comportamentos e posicionå-los dentro de uma história filogenética.
Mais especificamente, parti principalmente de uma teoria evolucionista chamada teoria da sinalização custosa. Essa teoria explica, por exemplo, por que pavĂ”es machos tĂȘm uma plumagem extremamente chamativa, enquanto as fĂȘmeas sĂŁo mais simples.
As fĂȘmeas escolhem machos mais chamativos para copular. A ideia que norteia minha pesquisa Ă© que o mecanismo evolutivo por trĂĄs dessa escolha das fĂȘmeas dos pavĂ”es estaria por trĂĄs tambĂ©m da escolha das mulheres em relação a homens que ostentam recursos. Na nossa sociedade, uma das formas de ostentar algo chamativo pode se dar por meio do consumo conspĂcuo.
O que vocĂȘ encontrou de resultados?
Esperava-se que as mulheres achassem mais atraentes os homens que sinalizassem consumo conspĂcuo. No caso da nossa pesquisa, que ostentassem uma Ferrari. Os nossos resultados nĂŁo mostraram influĂȘncia alguma do consumo conspĂcuo na atratividade dos homens. Os nossos resultados contrariam algumas pesquisas realizadas em outros paĂses. Ao que parece o consumo em si, isoladamente, nĂŁo interfere na atratividade.
Como foi feita a pesquisa?
As mais de 400 mulheres que participaram do estudo viam fotos de homens ao lado de carros de diferentes tipos, como Fiat Uno e Ferrari. Um mesmo homem aparecia ora ao lado de um carro popular, ora ao lado de um carro de luxo (consumo conspĂcuo). NĂłs fizemos isso ao longo de quatro experimentos, cada um deles com muitos detalhes e cuidados metodolĂłgicos especĂficos. Mas, resumindo, o que fizemos foi comparar a nota de atratividade que as mulheres davam para o homem quando ele estava ao lado do Fiat Uno com a nota que elas davam quando ele estava ao lado da Ferrari.
"Nosso estudo foi um dos mais completos que jĂĄ vimos na literatura em termos de isolar a variĂĄvel 'consumo conspĂcuo'."
O que a sua pesquisa permite concluir?
Nosso estudo foi um dos mais completos que jĂĄ vimos na literatura em termos de isolar a variĂĄvel âconsumo conspĂcuoâ como um critĂ©rio de atratividade. NĂłs nĂŁo interferimos na variĂĄvel âstatus socialâ, nem associamos o consumo conspĂcuo com o status social. Por conta disso, nĂłs podemos pensar que talvez tenhamos refutado a explicação da teoria da sinalização custosa para a atratividade masculina no que diz respeito ao consumo conspĂcuo. Ao mesmo tempo, nĂłs sabemos que nossos estudos tĂȘm muitas limitaçÔes, principalmente, no que diz respeito a refletir a realidade das pessoas no dia a dia. Por exemplo, dificilmente alguĂ©m no cotidiano fica atribuindo notas de atratividade a pessoas ao lado de carros. Enfim, Ă© difĂcil isolar as variĂĄveis para testĂĄ-las em LaboratĂłrio e ao mesmo tempo refletir fielmente a realidade, ainda mais quando trabalhamos com recursos financeiros limitados.
As fotos que usamos tambĂ©m podem ter interferido. Usamos montagens de pessoas ao lado dos carros, em um cenĂĄrio fictĂcio. Isso ficou aparente para os participantes e tirou a naturalidade das fotos. Em outras palavras, os participantes podem ter dado respostas que nĂŁo seriam as mesmas dadas em uma situação mais realista.
Outro problema pode ter sido os carros usados nas fotos. A Ferrari pode ser um carro economicamente tão distante da maioria dos participantes (a maioria estudantes universitårios) que simplesmente não evocou o tipo de comparação esperada. Para haver alguma comparação, as pessoas precisam se identificar minimamente com o que estå sendo comparado. Talvez num futuro estudo possamos usar carros de valores menos extremos e situaçÔes mais realistas.
"Ao que parece o consumo em si, isoladamente, nĂŁo interfere na atratividade".
Quais os novos estudos?
Planejo continuar explorando como diferentes sinais de status social podem influenciar na atratividade dos indivĂduos, especialmente sob o Ăąngulo da evolução (seleção sexual).
Qual a importĂąncia desse tipo de pesquisa?
Para compreender mais plenamente fenĂŽmenos comportamentais precisamos de explicaçÔes que abranjam vĂĄrios Ăąngulos de anĂĄlise. Precisamos saber os mecanismos biolĂłgicos e as influĂȘncias ambientais sobre determinado comportamento, mas sem perder de vista que mecanismos biolĂłgicos sĂł podem ser explicados Ă luz da evolução. Sem isso teremos apenas um amontoado desconexo de explicaçÔes descritivas, mas nenhuma noção de função que conecte essas descriçÔes e gere novas hipĂłteses para serem testadas.
AliĂĄs, meu estudo mostra que, a despeito de certas crĂticas, a psicologia evolucionista gera hipĂłteses testĂĄveis e que nem sempre sĂŁo corroboradas pelas evidĂȘncias, alĂ©m de mostrar como Ă© difĂcil e improdutivo separar biologia e cultura.


