• Felipe

Psicologia das Cores

Atualizado: Mai 9

Aqui está uma entrevista com a Sibele Aquino, Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC-Rio. Ela também é mestra em Psicologia (Social Cognitiva), especialista em Comunicação Empresarial e em Marketing. A Julia Goulart, estudante de graduação da PUC-Rio, fez algumas perguntas sobre como a personalidade pode se relacionar com as preferências por cores, e o resultado foi esse:



JG - O que você estudou?

SA - Bem, eu estudei comunicação, com habilitação em publicidade e propaganda. Isso explica a curiosidade do estudo das cores na Psicologia, né? É super interessante ler sobre pesquisas e achados a respeito do uso das cores. E é legal ver que em Psicologia, como em outras ciências, as cores também são objeto de pesquisa. A psicóloga (e também socióloga, eu acho) e Professora de Teoria da Comunicação e Psicologia da Cor Eva Heller fez estudos com 2 mil pessoas contemplando diferenças sociais, culturais, profissionais e econômicas para escrever um livro destinado a quem utiliza cores profissionalmente (artistas, designers de moda, publicitários, os cromoterapeutas, os designers gráficos ou de produtos industriais, os design de interiores ou os arquitetos). Tem gente que realmente quer saber como -- e se -- as cores interferem psicologicamente nos consumidores ou em pacientes, por exemplo.


Os resultados das pesquisas dela mostraram que as cores e sentimentos não se combinam ao acaso nem são uma questão de gosto individual – são vivências comuns que, desde a infância, são enraizadas na linguagem e o registro fica marcado na memória. Tipo um “match” contínuo. 😊 Ela estabeleceu associações de cores com cerca de 160 sentimentos distintos!

Existem fatores fisiológicos, sociológicos e psicológicos que influenciam e determinam as escolhas de cores. Antigamente, pesquisavam, por exemplo, a fisiologia do olho e a percepção das cores. Antes as cores em si eram estudadas como fenômeno da Física, e a percepção de cores, como fenômeno da Psicologia. Depois veio a Psicofísica e a Lei de Fechner-Weber, que estabelece a relação entre estímulo e sensação, permitindo uma mensuração dessa coisa toda. Segundo os autores dessa lei, a diferença que sentimos ao aumentarmos a intensidade de iluminação de uma lâmpada de 100 para 110 watts será a mesma sentida quando aumentamos a intensidade de iluminação de 1000 para 1100 watts! O que é curioso nisso? A percepção aumenta em progressão aritmética, enquanto o estímulo varia em progressão geométrica. Daí, entre tantos estudos, e tantas áreas usando e analisando as cores, há um peso psicológico na escolha dessa ou daquela cor. E esse “peso” é definido pelo sistema neurofisiológico de cada indivíduo. Acho importante a Psicologia Social Cognitiva se debruçar sobre isso.

JG - De onde veio a sua ideia de pesquisa? Ela se baseia em alguma teoria? Como foi feita a pesquisa?

SA - A pesquisa foi pensada e coletada pelo meu orientador, Dr Jean Natividade, e pela Dra Claudia Bandeira. Eles já tinham mostrado ligações emocionais com as cores, relacionando preferência por cores e disposições positivas das pessoas. Por exemplo, eles tinham encontrado correlação positiva entre apreciar cores neutras e autoestima (quanto maior uma, maior a outra). Apreciação de cores vivas também se correlacionou positivamente com autoestima e otimismo – ou seja: quanto mais alta a média em otimismo e autoestima, maior era também a preferência pelas cores mais vivas. Os resultados deles também mostraram que pessoas que preferiam cores vivas eram mais otimistas e esperançosas do que pessoas que preferiam algumas cores neutras.


Uma das teorias que embasam estas pesquisas é a Teoria de Lüscher, um psicólogo suíço que foi consultor sobre cores no campo industrial (até da Volkswagen, na Alemanha!), e um dos maiores pesquisadores mundiais sobre cores. Ele baseou o processo psicológico para o estudo do ser humano em um teste com sensações cromáticas e acromáticas, usando azul, verde, vermelho, violeta, marrom, preto e cinza. Por meio de vários testes chegou a muitas conclusões, e uma delas é que a sua pesquisa possibilita obter informações psicológicas precisas sobre um indivíduo mediante as suas preferências ou rejeições por determinadas cores. Considerando isso, aplicamos um questionário com uma escala de cores baseada na Teoria de Lüscher e escalas de traços de personalidade para testar que relações poderiam existir entre cores e características pessoais. JG - O que são o Big Five e o SexySeven? Qual a relação deles com a Preferência por cores?


SA - O Big Five é um modelo de medida de personalidade amplamente aplicado em pesquisas porque pode integrar várias teorias diferentes, numa compilação de cinco grandes fatores de personalidade: extroversão, agradabilidade, realização, neuroticismo e abertura a novas experiências.


Apesar de sua vasta abordagem, ainda há poucos estudos relacionando a preferência por cores com traços de personalidade e foi muito interessante testar isso. Mesmo com ampla aplicação e consistência, estudos orientados pelo modelo do Big Five muitas vezes não abrangem características pessoais que se referem à sexualidade e, embora a sexualidade seja um tema frequente em muitas teorias da personalidade, não foi contemplada no modelo Big Five. Por isso aplicamos também uma escala com construções independentes, que não estavam subordinadas aos 5 principais fatores de personalidade, mas também avaliam diferentes aspectos da natureza humana: o SexySeven. Essa medida pode oferecer informações sobre um outro sistema de características pessoais, pois os fatores são semelhantes aos usualmente aplicados para personalidade, mas esses são relacionados à sexualidade. Os descritores estão divididos em sete dimensões diferentes: atratividade sexual, orientação de gênero, disposição erótica, investimento emocional, exclusividade em relacionamentos, orientação sexual e restrição sexual. JG - Quais foram os resultados encontrados? O que a sua pesquisa permite concluir?

SA - Alguns resultados interessantes foram encontrados. A tabela com a análise de correlação ficou repleta de dados curiosos. Entre pessoas do sexo feminino, houve leve correlação entre grau de preferência pela cor branca e o fator Realização do BigFive e o fator Disposição Erótica do SexySeven. Isso indica, estatisticamente, que em mulheres à medida que a preferência pela cor branca é maior, as características descritas nesses fatores são também maiores: sentido de organização, foco em metas e motivação para ter relações sexuais. Também entre mulheres, nossa estatística mostrou que o grau de preferência pelo verde apresentou correlação negativa com o fator Neuroticismo do BigFive e positiva com Socialização, Abertura e Investimento Emocional. Isso indica apenas que...


...quanto mais a pessoa prefere verde, menos ansiosa e instável emocionalmente ela tende a ser, e mais colaboradora, aberta a novas experiências e disposta a investir nas relações ela é.

Já entre homens, o grau de preferência pela cor preta se relaciona negativamente com a Realização (fator no BigFive que indica índices de conscienciosidade, foco em metas e organização/planejamento) e com Restrição Sexual (fator do SexySeven que mede nível de restrição para a prática sexual); e a preferência pela mesma cor apresenta relação positiva com a motivação para ter relações sexuais.


Lembro que as relações, nesse estudo, podem apenas nos apontar associações, mas não causa de algum traço ou preferência. Outro dado curioso é que essa amostra confirmou o senso comum de que a cor "masculina" é o azul: entre as 9 opções à escolha, 30,1% dos homens escolheram azul como a cor preferida. JG - Quais novos estudos podem ser feitos a respeito do tema?

SA - Esse estudo desperta para a possibilidade de desenvolver testes específicos que avaliem mais consistentemente as características dos traços do BigFive e as do SexySeven conjuntamente. Como ainda não há evidências de que os descritores de sexualidade contribuem para prever variáveis ​​psicológicas além das características avaliadas pelo Big Five; e nem tampouco os fatores do Big Five podem descrever toda a gama de características humanas, seria muito interessante fazer novos estudos de elaboração de testes podem avançar no mapeamento de diferenças individuais em relação à sexualidade, à personalidade e à preferência e uso das cores.

JG - Qual a importância desse tipo de pesquisa?


Quando a ciência avança no mapeamento das diferenças individuais e desenvolve testes específicos para avaliar características de personalidade, há grandes possibilidades de entendimento de muitos outros aspectos da vida humana.

SA - Por exemplo, aprofundar, além de cinco grandes fatores de personalidade, as sete dimensões da sexualidade, pode trazer luz sobre características que têm grande importância para os seres humanos em muitas culturas, e, consequentemente, fornecer novos tipos de informação para relacionar diferentes variáveis psicológicas.

[Visualize o pôster correspondente ao estudo citado clicando nesse link: https://www.l2ps.org/publicacoes-e-resultados ]

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