• Nathalia Melo de Carvalho

A influência do luxo sobre a beleza: ostentar luxo faz as pessoas serem consideradas mais atraentes?

Atualizado: Mai 9

Felipe Carvalho Novaes, doutorando em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), fala da sua pesquisa de mestrado sobre como a evolução explica o que homens e mulheres consideram mais atraente.

O que você estudou?

Passei o mestrado estudando o consumo conspícuo como critério de atratividade. A minha ideia era descobrir se a ostentação de produtos luxuosos interfere no quanto as pessoas são consideradas atraentes, bonitas.



O que é, exatamente, consumo conspícuo?

Consumo conspícuo é sinônimo de compra de produtos luxuosos. São aqueles produtos que as pessoas podem usar para ostentar seu status social. Alguns poderiam chamar de consumo ostentação. Mas o termo foi consagrado há mais de um século por um estudioso chamado Thorstein Veblen. Ele usou o termo para se referir aos adereços altamente chamativos das classes aristocráticas do século XIX.

"A ideia que norteia a minha pesquisa é que o mecanismo evolutivo por trás dessa escolha das fêmeas dos pavões estaria por trás também da escolha das mulheres."

De onde surgiu a sua ideia de pesquisa, de qual teoria?

Minha ideia partiu do ponto de vista teórico da psicologia evolucionista, que é a área da psicologia que tenta investigar a função evolutiva dos comportamentos e posicioná-los dentro de uma história filogenética.


Mais especificamente, parti principalmente de uma teoria evolucionista chamada teoria da sinalização custosa. Essa teoria explica, por exemplo, por que pavões machos têm uma plumagem extremamente chamativa, enquanto as fêmeas são mais simples.


As fêmeas escolhem machos mais chamativos para copular. A ideia que norteia minha pesquisa é que o mecanismo evolutivo por trás dessa escolha das fêmeas dos pavões estaria por trás também da escolha das mulheres em relação a homens que ostentam recursos. Na nossa sociedade, uma das formas de ostentar algo chamativo pode se dar por meio do consumo conspícuo.


O que você encontrou de resultados?

Esperava-se que as mulheres achassem mais atraentes os homens que sinalizassem consumo conspícuo. No caso da nossa pesquisa, que ostentassem uma Ferrari. Os nossos resultados não mostraram influência alguma do consumo conspícuo na atratividade dos homens. Os nossos resultados contrariam algumas pesquisas realizadas em outros países. Ao que parece o consumo em si, isoladamente, não interfere na atratividade.

Como foi feita a pesquisa?

As mais de 400 mulheres que participaram do estudo viam fotos de homens ao lado de carros de diferentes tipos, como Fiat Uno e Ferrari. Um mesmo homem aparecia ora ao lado de um carro popular, ora ao lado de um carro de luxo (consumo conspícuo). Nós fizemos isso ao longo de quatro experimentos, cada um deles com muitos detalhes e cuidados metodológicos específicos. Mas, resumindo, o que fizemos foi comparar a nota de atratividade que as mulheres davam para o homem quando ele estava ao lado do Fiat Uno com a nota que elas davam quando ele estava ao lado da Ferrari.

"Nosso estudo foi um dos mais completos que já vimos na literatura em termos de isolar a variável 'consumo conspícuo'."

O que a sua pesquisa permite concluir?

Nosso estudo foi um dos mais completos que já vimos na literatura em termos de isolar a variável “consumo conspícuo” como um critério de atratividade. Nós não interferimos na variável “status social”, nem associamos o consumo conspícuo com o status social. Por conta disso, nós podemos pensar que talvez tenhamos refutado a explicação da teoria da sinalização custosa para a atratividade masculina no que diz respeito ao consumo conspícuo. Ao mesmo tempo, nós sabemos que nossos estudos têm muitas limitações, principalmente, no que diz respeito a refletir a realidade das pessoas no dia a dia. Por exemplo, dificilmente alguém no cotidiano fica atribuindo notas de atratividade a pessoas ao lado de carros. Enfim, é difícil isolar as variáveis para testá-las em Laboratório e ao mesmo tempo refletir fielmente a realidade, ainda mais quando trabalhamos com recursos financeiros limitados.


As fotos que usamos também podem ter interferido. Usamos montagens de pessoas ao lado dos carros, em um cenário fictício. Isso ficou aparente para os participantes e tirou a naturalidade das fotos. Em outras palavras, os participantes podem ter dado respostas que não seriam as mesmas dadas em uma situação mais realista.


Outro problema pode ter sido os carros usados nas fotos. A Ferrari pode ser um carro economicamente tão distante da maioria dos participantes (a maioria estudantes universitários) que simplesmente não evocou o tipo de comparação esperada. Para haver alguma comparação, as pessoas precisam se identificar minimamente com o que está sendo comparado. Talvez num futuro estudo possamos usar carros de valores menos extremos e situações mais realistas.

"Ao que parece o consumo em si, isoladamente, não interfere na atratividade".

Quais os novos estudos?

Planejo continuar explorando como diferentes sinais de status social podem influenciar na atratividade dos indivíduos, especialmente sob o ângulo da evolução (seleção sexual).


Qual a importância desse tipo de pesquisa?

Para compreender mais plenamente fenômenos comportamentais precisamos de explicações que abranjam vários ângulos de análise. Precisamos saber os mecanismos biológicos e as influências ambientais sobre determinado comportamento, mas sem perder de vista que mecanismos biológicos só podem ser explicados à luz da evolução. Sem isso teremos apenas um amontoado desconexo de explicações descritivas, mas nenhuma noção de função que conecte essas descrições e gere novas hipóteses para serem testadas.


Aliás, meu estudo mostra que, a despeito de certas críticas, a psicologia evolucionista gera hipóteses testáveis e que nem sempre são corroboradas pelas evidências, além de mostrar como é difícil e improdutivo separar biologia e cultura.




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