• Sibele Aquino

É preciso falar sobre preconceito

por Sally Ramos Gomes.

É preciso falar sobre preconceito

Somos animais tribais. Sozinhos, não sobreviveríamos. Nascemos completamente vulneráveis e dependentes; nossa maturação neurocognitiva e desenvolvimento motor se dão a passos lentos, se nos compararmos a outras espécies. Esse é o preço pago pelo Homo sapiens para ter o cérebro mais complexo do reino animal.

Amamos aqueles que nos cuidam e os grupos aos quais pertencemos, não somente por questões de sobrevivência em tempos remotos, mas também porque, através deles, criamos nossa própria identidade; a começar pela família, pela raça, pela nação e pela cultura. Pertencer a grupos faz parte de nossa natureza. Contudo, não é somente de flores e poesia que a história da afiliação humana se teceu.

Fazer parte de certos grupos implica, necessariamente, em não fazer parte de outros. E o instinto de proteger e defender a honra dos seus leva os humanos a favorecer seus pares, podendo culminar em atos discriminatórios de zombaria, evitação, cinismo, injustiça, desfaçatez e, em suas formas extremas, até a crimes.

O preconceito é uma atitude que desvaloriza e deprecia, direta ou indiretamente, grupos externos, aqueles nos quais não nos reconhecemos. Enxergar o mundo pelas lentes do preconceito é reduzi-lo a rotulações simplistas, deixando de vislumbrar pormenores e particularidades, o rico mosaico multidimensional de características que compõem cada indivíduo: suas preferências pessoais, seus sentimentos e angústias, seus sonhos e pesadelos. Hábitos, idiossincrasias e até contradições são ignoradas e só se percebe um atributo, aquele que salta aos olhos e que torna a pessoa um reles membro de uma categoria. Pode ser a cor da pele, o sexo, a idade, uma deficiência física, o sotaque, uma ideologia... O “outro” torna-se homogêneo e monocromático, sendo rejeitado e excluído.

É difícil contornar o preconceito e a discriminação em todas as interações sociais. Essa dificuldade se deve ao modo como a cognição humana foi moldada ao longo da evolução. Somos avarentos cognitivos, o que significa que nos relacionamos com o ambiente e com outras pessoas tentando apreender a realidade social com o menor esforço possível. Negligenciamos informações que não nos convém. Nossa atenção é seletiva, percebemos com mais facilidade o que vai ao encontro de nossas ideias pré-concebidas. Dessa tendência nasce a inclinação de classificar outros indivíduos e outros grupos de maneira superficial. Classificamos sem perceber porque simplesmente é inviável perscrutar analiticamente todo e qualquer estímulo. E essa espécie de atalho mental conduz a rótulos pejorativos.

Em geral, isso acontece em contextos históricos específicos, como o racismo em países com histórico escravocrata, com judeus em países com histórico antissemita, e assim por diante. A história da humanidade foi sendo desta forma escrita. O temor da miscigenação já foi até institucionalizado e socialmente legitimado, como no caso do Apartheid, na África do Sul. A violência já foi organizada, inclusive, em escala industrial, provocando guerras mundiais, promovendo genocídios ou ditaduras totalitárias que não admitiam nenhuma oposição. No início do século passado mal havia democracia e enaltecimento da pluralidade. Pelo contrário... Segregação, escravidão, linchamentos, massacres, conflitos de múltipla ordem; tudo porque certos grupos se percebem como mais dignos ou mais merecedores do que outros. Seria essa a natureza humana?

A psicologia social evidencia a multiplicidade de fatores psíquicos, sociais, culturais e contextuais que interagem para explicar a fenomenologia do comportamento, salientando quão suscetíveis somos para a belicosidade. Gatilhos arcaicos que, quando ativados, transparecem um lado animalesco do qual podemos nos envergonhar. Sair correndo apavorado por ter se defrontado com um “outro estranho” foi fato recorrente na nossa evolução; nossos ancestrais assim o faziam muito antes de existir civilização. O quadro piora quando se atribui um déficit de humanidade, “coisificando” e pondo em questão os direitos mais básicos de um grupo externo, por vezes até enxergando-o como membros de outra espécie ou corpos sem alma, classificando, etiquetando e distinguindo vidas que contam mais daquelas que não merecem tanto respeito ou consideração.

É preciso falar de preconceito, estereótipos e discriminação, pois, apesar de todos os avanços civilizatórios que alcançamos – como a abolição da escravatura, ou ainda a criminalização do racismo e da homofobia – ainda muito se ofende, muito se marginaliza, muito se humilha, muito se odeia, muito se mata. Gratuitamente. Por questões intergrupais.

É preciso falar de preconceito, estereótipos e discriminação, pois, para que possamos levar adiante os belos traços que carregamos – como a empatia, a criatividade, a generosidade, a solidariedade - e que nos possibilitaram criar cultura, ciência, arte e códigos morais para vivermos em maior harmonia, também precisamos compreender nosso lado sombrio, nossos pontos cegos, nossas limitações cognitivas, nosso infantilismo afetivo.

É preciso falar de preconceito, estereótipos e discriminação para que um dia (quem sabe?) pessoas como George Floyd ou o menino João Pedro não sejam cruel e covardemente assassinadas. Para que um simples traço descritivo não tenha tanta preponderância na ideia que se faz do outro. Não somos uma impenetrável fortaleza de convicções e podemos aprender e nos tornarmos mais maleáveis socialmente. Afinal de contas, apesar de toda a perversidade, também somos mamíferos sedentos de amor e loucos para compartilhar experiências e emoções.


Texto: Sally Ramos Gomes.

Revisão: Felipe Novaes.

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